Quebra-cabeças


                Desde que fui obrigada a te deixar, minha vida perdeu um pouco aquela euforia de outrora, é como se uma parte de mim, que até então estava inativa, fora arrancada vorazmente sem chance para sutura, essa ferida se alastra cada vez mais, pouco a pouco, dia após dia. Ela só ameniza um pouco quando troco algumas palavras com ele, mesmo com trejeitos distantes, percebo que existe um grande respeito entre nós. Respeito, este, que até então, pouquíssimos humanos tiveram para comigo. A ferida não cessa, ela lateja, arde, machuca, mas creio que ela seja necessária, porque, de alguma forma, ela me serve como um lembrete de que dias melhores virão. Nesses poucos momentos que passamos juntos, sinto-me sublime. Aprendi que mais vale dois dias bem vividos do que dois anos penosos ao lado de outrem.
                Confesso que fui egoísta. Nunca tinha experimentado sentimento difuso como esse, um misto de alegria e tristeza permeia o meu ser nesse exato momento. Você não está ao meu alcance físico e isso me atordoa a alma, embora a alegria de saber que ele exista, me faz levantar todo dia com um calor no peito. Agora eu te entendo, te entendo mesmo e preciso me desculpar por tudo o que eu disse. Você deve ter sofrido calado, com essa cara de forte que você diz que tem, quando, na verdade, é uma manteiga derretida e mesmo assim, você se mantêm firme, essa é uma de suas características que mais gosto. Mas entenda, eu nunca vivi nada tão verdadeiro, sei que não é o suficiente, mas... E você me deixou ir, numa tentativa desesperada de que essa sua dor cessasse. Não sei o que se passa na sua cabeça, você não me diz, mas sei que ela também anda bem bagunçada.  Ainda mantemos nossa conexão (sabe-se-lá-como).
                A vida é feita de momentos, peças de um quebra-cabeças muito maior que nós podemos entender no momento, até hoje não sei se te encontrar foi obra do destino ou mero acaso. Não importa mais, não busco essa resposta. Parece que foi ontem que te vi na rua e perguntei as horas, sei que fui meio boba naquela hora. Não sabia bem o que estava fazendo, mas você me atraia de uma forma inexplicável e foi ali que percebi que era você. Lembro-me que depois desse evento fui a uma festa, meio chatinha, estava indisposta naquele dia, mas acabei indo, aqueles bêbados que tentaram me agarrar já me deixaram tão irritada que me virei para ir embora, até que uma cena me chamou a atenção. Um rapaz só, sentado na varanda contemplando as estrelas, parecia que estava em outro mundo. Me aproximei e percebi que era você. Finalmente encontrei um motivo para permanecer naquela festa e com o decorrer daquela noite cai em mim e constatei o que já suspeitara, eu estava completamente apaixonada por aquele cara. Parecia uma boba rindo de qualquer coisa, foi a primeira vez que senti o calor tomar conta do meu peito, eu parecia uma boba, mas, se você não quer parecer bobo, não tem o direito de dizer que está apaixonado.

A noite correu e o dia amanheceu.

                O tempo passa e nos perdemos, novamente o destino (ou o acaso) atuam sobre nossas vidas.  Eu que sempre fui fã do dia, passei a simpatizar agora com o crepúsculo. O sentimento de aconchego era melhor quando o sol dormia. Seguimos nossos destinos, cada um tomou seu rumo, eu tive que me mudar por causa do trabalho e você precisava terminar sua faculdade. Embora minha vontade fosse de pegar o telefone e te ligar, me segurava dia após dia, não tinha o direito de interferir na sua vida, embora esse fosse o meu maior desejo em alguns momentos.
                Até que não resisti e sucumbi. Precisava ouvir sua voz, nem que seja só para dar um ‘oi’. Te liguei... A conversa fluiu num tom agradável, ainda me impressiono com tamanha gentileza vinda de sua parte, no começo pensava que você estava só fazendo tipo, mas com o passar do tempo descobri que esse era você mesmo e isso me deixava feliz. Ele me disse que ia começar uma nova etapa da sua vida, que responsabilidades maiores o aguardavam. Às vezes parecia um velho falando, tão formal e ao mesmo tempo tão desengonçado, esse era seu charme, cativava as pessoas de uma maneira impressionante e isso é bom.
                Depois dessa nossa conversa fiquei mais aliviada, pude constatar que ele estava bem, apesar de ter percebido certo tom de nostalgia na sua voz. Não consigo definir muito bem o que era, mas sei que o que quer que fosse, quando a hora chegasse, eu haveria de saber. É como eu disse, fazemos parte de um quebra-cabeça gigante. Na nossa estrada, vamos coletando peças em busca de nossa completude. Às vezes achamos algumas e tentamos encaixar, forçamos, colamos, elas até ficam lá um pouco, mas, com o tempo acabam se soltando, porque definitivamente não fazem parte do conjunto, contudo, existem outras que encontramos perdidas no fundo de uma gaveta ou embaixo do sofá, essas são as peças especiais, aquelas que nem sabíamos que existiam e são as mais legais, que formam os desenhos mais bonitos. Não descobri ainda que tipo de peça ele é, mas, se por  acaso for uma que não encaixe, sempre existe tesoura e cola, né?
E essa é a lição de hoje amiguinhos. Até o próximo episódio

*Esse texto foi adaptado de uma ideia original a qual recebi de presente, muito obrigado :)

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